April23
Por: Daniel Costa

Heavy Rain é um símbolo, uma oferenda riquíssima com propósito admirável. Uma obra maior que provoca emoções e tenta expandir, renovar a rede criativa dum meio maduro mas jovem. Admire-se o argumento sensível, a interactividade visceral e conceito imaginativo, tribute-se o empenho, talento e coragem de quem esculpiu uma experiência marcante e diferente. Contam-se os méritos da pegada digital da Quantic Dream, falta explicar o pecado na visão de David Cage.
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April16
Por: Daniel Costa

Aquando o lançamento da Xbox em solo japonês, em Fevereiro de 2002, admitia-se o potencial técnico da máquina da Microsoft, mas discutia-se a viabilidade da plataforma num mercado tão nacionalista como conservador. A empresa de Seattle enfrentaria uma equação dantesca: como vender uma consola gigante, sem história ou apelo no país, com o selo norte-americano em testa. Ora, um desafio ao leitor mais criativo: como se alia o interesse nipónico ao ocidental, suportando o portento técnico da tecnologia em montra? Certo! Imagina-se um (suposto) clássico de combate desenvolvido entre portas, mas entupido de iconografia americana, apoiado por texturas de luxo e direcção artística apurada. Infelizmente, Kakuto Chojin falhou por mérito dúbio e excessiva sensibilidade religiosa. Sim, leu bem.
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April14
Por: Daniel Costa

Como algemas que afligem uma indústria em expansão, as consolas que decoram a sala de milhões perpetuam uma zaragata contraditória. À luz duma herança pesada e conservadora, o progresso dos videojogos continua preso à convicção dum trio de empresas que, por conforto e apatia, resumem uma expressão cultural, artística e social a guerra de maquinaria. Escrito o desabafo, confesso-me reticente: passará o futuro da indústria pela extinção das consolas tradicionais?
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April13
Por: Daniel Costa

Pela (pouca) experiência que levo na rede de comboios do Japão, tenho duas certezas: não há atrasos de preguiça, cada viagem aguça os sentidos. Navegar nas linhas complexas, mas organizadas, do país supõe paisagens de cortar o fôlego, informação constante e, claro, velocidade alucinante. Ao leitor interessado na condução e interacção com este meio de transporte, dedico uma referência muito especial à série Densha de Go! (literalmente, “Ir de Comboio”), da Taito, exclusiva no mercado japonês. Trata-se dum simulador de condução de comboios, com recriações perfeitas dalgumas linhas do Japão, que coloca o utilizador na cabine do condutor. Quase literalmente.
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March17
Por: Daniel Costa

Hoje procura-se o estímulo imediato, uma dentada fácil que acomode as preocupações do dia. Numa bolha de consumo digital, cresce a igreja do devoto certo, que vai pregando as boas novas do corriqueiro sem questionar rumo ou sentido. Quer-se mais, falta risco, intenção e coragem à carteira dos que nos servem rios de vermelho em base cinza. Peço alma e diferença, rebeldia ou nova interpretação dum quadro branco, duma tela riquíssima à espera de nova tinta. Entre os bravos da companhia que urgem a tal diferença, salvam-nos os pecadores com uma visão, que colam personalidade e alma a cada disco. Hideki Kamiya aceitou o risco com Bayonetta. Rumou contra a maré inconstante e perigosa que ainda ameaça o seu berço criativo, interpretando a herança do próprio passado.
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February26
Por: Daniel Costa

O conceito de expressão artística supõe ideias, mensagens do intérprete em molde egoísta. Adjacente à visão de qualquer artista, quer-se um enredo sentido, a missão dum projecto que comunica a alma do autor. Na sombra do grande ecrã, desenvolveram-se técnicas para contar um texto num videojogo. O processo de ver e sentir cinema não encontrou tradução literal no mundo digital. Em 2010, uma falange de criativos decide percorrer um caminho de escolhas, adaptando a progressão à moral de cada entusiasta de sofá e preferindo uma nova aproximação ao modelo cinematográfico. Entre eles, destaca-se o trabalho do estúdio francês Quantic Dream, responsável por Heavy Rain. O disco propõe outra interpretação da tal emoção interactiva. Mais que um encosto no carril narrativo que guia qualquer fotograma, Heavy Rain tenta brotar algo novo, devolver os fatos de laboratório imaginando a história digital de amanhã.
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February11
Por: Daniel Costa

Pela juba berrante que o protagonista de Afro Samurai ostenta, o leitor fiel a este cantinho já presume a folia na obra em montra. Afro Samurai nasceu nas páginas da revista de manga Nou Nou Hau (ノウノウハウ), em 1999, pela visão e desenho de Takashi Okazaki. O artista nipónico havia carregado pelos anos a ideia dum Japão feudal revitalizado pela tecnologia e cultura do Ocidente. Sim, Afro Samurai resulta do apego do autor a música hip-hop, tecnologia e filosofia ancestral do seu país. Credo!
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February2
Por: Daniel Costa

Avatar, novo filme de James Cameron, é uma fita profética para o império californiano, vítima de apatia e anacronismo forçado. Além da criatividade gritante, mitologia desenvolvida e interpretação política, Avatar enfeitiçou a vista de milhões com uma apresentação visual deslumbrante. Aquando a peregrinação em manada a uma sala de cinema, enfeitada a teias de aranha e bolor de hábitos, trajei a cinéfilo de ocasião, equipado com a maravilha messiânica do meio. Guardados os óculos escuros, rezada a prece de 162 minutos, ficam a memória visual de beleza indiscutível e marcas de ironia adjacente à indústria em causa. Tecnologia e arte caminham na mesma estrada, trilham um conto de sucesso enquanto desafiam estigmas e moldam a cultura dum mundo podre, carente de hoje mais ainda preso a ontem. O apego ao conceito 3D será, portanto, a postura lógica na edição de fotogramas. Mas quando cai o pano, além da fita de sonhos de Hollywood, fica o ninho de ouro da nossa era. A indústria que abençoa o escriba de serviço promove a imagem tridimensional a cada ocasião, louva o mérito do entretenimento por camadas sem reflexão ou respeito pelo consumidor de esquina.
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January29
Por: Daniel Costa

Além da cortina de sangue e medo que cobria o mundo, havia esperança. Uma luz. O sonho impossível, refém da condição Humana mas superior ao resto. Quando o medíocre venceu, ficou a visão utópica dum grupo iluminado, um nicho de almas que carregava o peso da cultura, arte e ciência. Pela mão e voz de Andrew Ryan, guiou-se a elite a algo novo, nasceu uma sociedade fundada no brilho e grandeza. Limpo o sangue que pintou o mundo num conflito de todos, a ideia, o tal sonho ganhava alma. Rapture. O destino dos grandes. O derradeiro passo civilizacional. Mais que uma cidade, Ryan imaginou uma sociedade livre de correntes, um templo oculto sem oração ou hipocrisia. Perdida no fundo do Atlântico, Rapture respirava sob quem forçou a sua existência, aconchegada pela calma do mar numa era de revolta. No inicio de vida da cidade, a vontade de um era o ganho de todos. Andrew Ryan renegava a generosidade do frio e a bondade do novo mundo, preferia a bênção do capitalismo como suporte político e ideológico. Ainda no berço, a cidade de génios chorava por mais, por justificação e sentido.
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