Pela juba berrante que o protagonista de Afro Samurai ostenta, o leitor fiel a este cantinho já presume a folia na obra em montra. Afro Samurai nasceu nas páginas da revista de manga Nou Nou Hau (ノウノウハウ), em 1999, pela visão e desenho de Takashi Okazaki. O artista nipónico havia carregado pelos anos a ideia dum Japão feudal revitalizado pela tecnologia e cultura do Ocidente. Sim, Afro Samurai resulta do apego do autor a música hip-hop, tecnologia e filosofia ancestral do seu país. Credo!

Depois da passagem pela película anime, com uma série de 5 episódios e um filme, a premissa de Afro Samurai chegou para que o projecto encontrasse casa no mundo digital. Claro. O videojogo com o mesmo título foi desenvolvido e publicado pela Namco Bandai, em Março do ano passado, para Xbox 360 e PlayStation 3. A competência mecânica do mesmo sugere um comportamento bipolar; Afro Samurai é um hack and slash rudimentar e abstracto que promove o encosto a meia dúzia de técnicas, oferece segmentos de exploração perfeitamente irrelevantes, roça o medíocre com divertimento a espaços. Mas a glória da aventura digital de Afro está no espanto artístico da obra. A Namco Bandai brotou um visual inspirado na manga original, apresentando cenários pintados com a técnica cel-shading e modelagem criativa. Tudo reluz em Afro Samurai. Sente-se o ambiente muito próprio do Universo de Okazaki em cada minuto da aventura. Mais, a vertente musical do título em escrutínio sublinha a mensagem, com temas que bebem influência do Japão e Ocidente, numa mistura (estranhamente) acertada para a acção e ritmo. Ainda na sonoplastia, o actor Samuel L. Jackson também brilha na voz de Afro, e respectivo alter-ego sem tento na língua, Ninja Ninja.

Caro leitor, é-me difícil recomendar Afro Samurai. Trata-se duma demanda de 6 horas com pouco lustro técnico e rotina previsível. Contudo, o disco da Namco Bandai vale pela narração interactiva duma história de vingança, recorrente mas interessante, que atinge picos de criatividade e arte merecedores de investimento. Um choque de culturas, único no meio, que guia o utilizador por um período neo-feudal onde impera a violência e falta honra. Junta-se uma pitada de humor, personagens marcantes (lembre-se de Kuma) e desmembramento gratuito e tem-se uma receita diferente. Pelo melhor e pior de Afro Samurai, nunca provou nada assim.

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