
Além da cortina de sangue e medo que cobria o mundo, havia esperança. Uma luz. O sonho impossível, refém da condição Humana mas superior ao resto. Quando o medíocre venceu, ficou a visão utópica dum grupo iluminado, um nicho de almas que carregava o peso da cultura, arte e ciência. Pela mão e voz de Andrew Ryan, guiou-se a elite a algo novo, nasceu uma sociedade fundada no brilho e grandeza. Limpo o sangue que pintou o mundo num conflito de todos, a ideia, o tal sonho ganhava alma. Rapture. O destino dos grandes. O derradeiro passo civilizacional. Mais que uma cidade, Ryan imaginou uma sociedade livre de correntes, um templo oculto sem oração ou hipocrisia. Perdida no fundo do Atlântico, Rapture respirava sob quem forçou a sua existência, aconchegada pela calma do mar numa era de revolta. No inicio de vida da cidade, a vontade de um era o ganho de todos. Andrew Ryan renegava a generosidade do frio e a bondade do novo mundo, preferia a bênção do capitalismo como suporte político e ideológico. Ainda no berço, a cidade de génios chorava por mais, por justificação e sentido.
Mesmo longe dos vícios do solo, Ryan precisava de ordem para despertar o progresso. Num mercado livre, num ninho de mentes brilhantes, renovava-se a fé na ciência e desenvolvimento. Talvez por isso, era imperativo mudar, redefinir a Humanidade num único passo. ADAM. Um novo começo. Uniu-se a demanda por mudança à ambição de Tenenbaum. A reformulação do genoma Humano numa garrafa. O verdadeiro éden capitalista que expandiu o tal sonho impossível de Rapture a um monopólio de oportunistas. Cada homem por si. O sumo experimental de Tenenbaum evaporou em névoa de vergonha e arrependimento, restando a herança macabra duma vida oferecida à ciência e descoberta. O trabalho da recruta de Ryan brotou negócio fácil para Frank Fontaine. Na cápsula antropofóbica de Rapture crescia a dependência da mudança, de sentir algo novo que validasse o isolamento e aventura. Fontaine oferecia mudança a bom preço. A indústria dos plasmids ganhava força na sociedade elitista. Pela fome de ADAM, revelou-se a serpente.
Até os grandes sentem como um homem comum. Frank Fontaine entendeu o colapso ideológico de Andrew Ryan como outra oportunidade, outro saco de ouro pintado a vermelho sangue. Fontaine embutiu fé e caridade numa máscara de ocasião, preparando uma guerra sem pátria ou honra. O sonho de Ryan era resumido numa luta bipolar pelo domínio do sítio, dum reinado capital, dum castelo de sonhos desfeitos que ruía a cada esquina. O início do fim da utopia. Confirmava-se o impossível num conflito fechado, via-se inocência destruída pela essência imutável do Homem. Elas não sabiam nada. Eram casulos de arrogância de outrem, tubos de ensaio em corpos de anjo. Tenenbaum manipulava as filhas de ninguém para servir o ego de Fontaine. Juntos, transformaram-nas em abutres sem alma. ADAM. Tudo por ADAM. O desespero de Andrew Ryan cravou outra linha no destino daquelas crianças. Estavam condenadas a vaguear pela ideia afundada, resgatando ADAM nos visionários caídos, como pequenas princesas de pé descalço sem rumo ou propósito. Na cidade decadente havia tempo para uma última dança, um foco de luz no mar escuro que rodeava Rapture. Os gigantes trajados a aço protegiam a colheita de ADAM, ofereciam a vida pela arrogância de Ryan e Fontaine, escoltavam aqueles anjos pelas praças da cidade. Homens sem poder ou vontade própria, mas com devoção tocante, fechavam a ilusão de Rapture com ternura e medo.
Um presente do céu. O regresso anunciado. Esperança? Não, alma alheia a um sonho corrupto, sem prisão de ideias ou apego a qualquer voz. Barro frio num forno quente. Escolheu um par e dançou, alterou o rumo de Rapture, experimentou hipocrisia, incerteza e força. Recebeu a dádiva da escolha. Sobre ele pesou a lenda, a herança dum conto que serve qualquer aviso. Agora, depois do sonho, à utopia de Rapture junta-se uma certeza: os anjos também caem.




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