
Este tempo de conteúdo homogéneo, onde o banal cicatriza a criatividade escondida, urge tributo aos melhores intérpretes, a quem eleva a arte digital a cada ocasião. Goichi Suda, filho pródigo de Nagano, Japão, é um desses guerreiros sem luz; pioneiros na arte de bem entreter, mas condenados ao labor por trás do pano. Contudo, a ascensão criativa do tributado não resultou dum plano de vida perfeito. Antes de ser Suda 51, Goichi foi coveiro.
Enquanto confiava almas à terra, Suda foi tratando da sua; a paixão desmedida pelo mundo da luta livre profissional terá despertado o impulso criativo, a vontade de fazer algo mais, de migrar da mais triste emoção Humana para a vida das ideias. Quando Goichi assina um contrato com o estúdio Human, morre o cangalheiro, nasce o designer.
Em 1993, Suda 51 empregou conhecimento e devoção no enredo de Super Fire Pro Wrestling 3 Final Bout (Super Nintendo); a tal euforia pela luta livre resultou num guião arrojado, um molde fiel à directriz criativa do novo artista da praça. Com 25 anos de idade, Goichi tinha conquistado um novo amor, uma forma de expressão que lhe propunha mais que a lide fúnebre. Ainda assim, a arte de Suda 51 mantinha uma relação de cumplicidade com a morte. A narrativa de Super Fire Pro Wrestling Special (Super Nintendo, 1994) esmagava o utilizador num ambiente mórbido, reforçado por um final trágico; mesmo após ter vencido o torneio de wrestling, guiada por amargura de amor, a personagem central da trama comete suicídio. Esta assinatura digital simbolizava uma luta ideológica constante, a postura controversa duma mente tão caótica como surpreendente.
- Porquê Suda 51?
A certa altura, Goichi escolheu ser Suda 51. A mudança de entidade, bem acomodada ao ouvido, sugere o tributo a um ícone pessoal, um encosto a qualquer marco que influenciou o artista. Nada disso. Em japonês dir-se-ia, “go ichi”, na língua portuguesa lê-se “5 1″. Trocadilho conveniente, portanto. Para o registo, se Goichi escolhesse o pseudónimo Suda “cinquenta e um”, a pronunciação correcta seria “gojuu ichi”.
Com a experiência adquirida na Human, onde ainda trabalhou na série Syndrome, Goichi ganhou interesse pela vertente empresarial da indústria. Quando abandonou o estúdio, em 1998, Suda 51 fundou a Grasshopper Manufacture, um ninho para quem pensava diferente, uma visão condenada à sombra desde o berço. The Silver Case (PlayStation, 1999), a primeira obra com selo Grasshopper, apresentava um estilo narrativo adjacente à filosofia de Goichi, um mundo vivo com personagens complexas e orgânicas. Na cadeira de realizador, Suda tinha liberdade para imaginar um crime incomum, com desenvolvimento e desfecho em dois capítulos. Desafiando a própria saúde mental, Suda 51 voltou a reinventar-se em Flower, Sun, and Rain (PlayStation 2, 2001). Num ambiente gráfico minimalista que apenas servia o propósito criativo da arte em montra, o título apresentava Sumio Mondo, alguém que revivia o mesmo dia sequencialmente. A estrutura da obra envolvia o detective digital numa espiral claustrofóbica e quase insana.
- Futuro vermelho
A Grasshopper de Suda 51 continua a trabalhar na propriedade intelectual que fundou. Na sequência do primeiro título, a Wii receberá No More Heroes 2: Desperate Struggle no início de 2010. The Silver Case estará no catálogo da Nintendo DS. Mais, Goichi trabalha num projecto de “terror e acção”, segundo o próprio, com a colaboração de Shinji Mikami (Resident Evil), que também produziu killer7, e da Q Entertainment de Tetsuya Mizuguchi (Rez). O jogo será publicado pela Electronic Arts. Assustado?
Enquanto Suda 51 ganhava notoriedade e respeito, faltavam discos que levassem a filosofia do criativo ao público ocidental. killer7 (GameCube, PlayStation 2, 2005) recorria a uma premissa complexa, assente em dogmas controversos, para sujeitar o utilizador à interpretação do enredo. Na tentativa de unir o mundo sobre liderança japonesa, as sete personalidades de Harman Smith, um velho semi-deus preso numa cadeira de rodas, ganhavam forma de assassinos tridimensionais num universo absolutamente distorcido. Goichi expandiu a crítica sociopolítica e experimentação conceptual de killer7 a No More Heroes (Wii, 2008). Travis Touchdown, um protagonista obcecado por anime e luta livre, massacrava todos os concorrentes ao título de melhor assassino. A personalidade de Travis confundia-se com a identidade duma aventura diferente, um desabafo que elevou a violência gratuita a humor com apego emocional. Com killer7 e No More Heroes, Goichi conquistou reconhecimento global e deu outro passo fora do escuro.
Suda 51 simboliza o espírito renovador e progressista da nova arte digital japonesa. Ainda em viagem, Goichi desafia os seus demónios em plena luz, à vista dos fiéis que lhe tributam o génio, enquanto redefine os limites duma indústria em crise de identidade. Talvez seja essa a grande vitória de Suda. Talvez por isso ainda haja heróis.




No More Heroes é um dos dos jogos mais refrescantes, que joguei ultimamente, um “must have” para amantes de anime!
Adorei o seu site. Escrita excelente