
Por entre as indústrias do entretenimento mais convencional, condenadas a decadência forçada por culpa de métodos primitivos e saturação de décadas, salvam-se as mentes que ainda correm por paixão, que jorram emoção em cada oferta. Se a música, por exemplo, é geralmente considerada uma linguagem universal, que salta barreiras culturais atingindo corações e almas em todas as nações, a experiência, o pacote de emoções sugerido pelos videojogos ainda busca acreditação definitiva. Pergunto-me: estará esta indústria limitada à identidade, cultura ou ideologia dos artistas?
Braid, uma das jóias mais valiosas na colecção do desenvolvimento independente, apresentava uma mecânica de progressão perfeitamente reaccionária. A obra oferecia um enredo apaixonante, apoiado na competência técnica e criativa em montra, sustentada pela interpretação de cada aventureiro de sofá. Após pensar em inúmeras teorias que explicassem a estrutura narrativa de Braid, capaz de atrair até os mais carrancudos, decidi conversar com o autor do título, Jonathan Blow. A certa altura, o criativo norte-americano, entretanto atarefado com um novo projecto, afirmou que “a universalidade dos videojogos não está relacionada com sentimentos”. O programador de coração quente disse ainda que essa linguagem universal até seria possível, mas “no mesmo sentido que a matemática”.
Caro leitor, entenda este assunto como a maior questão ideológica do meio; a abordagem tentacular dos gigantones da indústria precisa de discos unânimes e apelativos a cada consumidor, mas a directriz criativa uniforme, e muitas vezes desprovida de alma, castra os sonhos de muitos artistas de cave. Por isso mesmo, entendo a ideia de Blow. A globalização começa a mandar neste barco, forçando um rumo unidireccional, perigoso e arriscado.
Falta a magia. O encanto. Tudo aquilo que me rendeu a um mundo de sonhos, de imaginação e potencial infinito. Acredito profundamente na expansão dos videojogos como meio de comunicação, troca cultural e universalidade artística. Contrariando Blow, penso que o sentimento de conquista, a vontade de explorar terrenos digitais e as lágrimas que abençoam os créditos finais duma obra de eleição simbolizam o verdadeiro poder desta arte, potenciado por um único idioma – emoção interactiva. Além do código, do processo enfadonho e mecânico, há um elo comum entre os que se entregam a cada experiência digital; quem sente, vive cada momento como seu.
Também pode ler este texto na coluna Now Loading, na edição nº8 (Dezembro) da Revista Smash!



