
A SNK Playmore de hoje alimenta nostalgia e ideias de outrora, mas continua longe do pico criativo da década passada. Contudo, o rumo da SNK nunca se sobrepôs à maior herança da companhia, a Neo Geo.
Após o colapso da indústria dos videojogos em 1983, o aumento da produção para as salas arcade renovou o interesse alheio na arte interactiva. A SNK, fundada como Shin Nihon Kikaku (literalmente, “Novo Projecto do Japão”), impulsionou esse nicho com uma oferta única e apelativa. Aquando o lançamento da versão arcade da Neo Geo, em 1990, os cabecilhas do negócio louvaram o tamanho reduzido das cabines, agradeceram a flexibilidade da máquina, que suportava até 6 cartuchos simultaneamente, e salvaguardaram as carteiras. Além do desenho inovador da Neo Geo MVS (Multi Video System), o preço de cada cartucho de jogo rondava os $600; nova bênção que terá contribuído para a aposta recorrente na máquina da SNK. A comodidade logística adjacente ao sistema, e um catálogo curto mas interessante e original, despertavam a euforia vibrante de cada sonhador digital de moeda em punho.
Saque pirataOs hereges que preferiram ignorar o percurso da Neo Geo ao longo dos anos tiveram uma segunda hipótese de apanhar a onda. A emulação da máquina permitiu o acesso gratuito, mas eventualmente ilegal, a todo o catálogo de arte digital da SNK. Entre vários programas, escritos para emular o funcionamento da arquitectura da Neo Geo, destaco o NeoRAGEx. Desde que Anders Nilsson e Janne Korpela (autores do infame software) disponibilizaram uma versão estável do programa, o conceito Neo Geo ganhou mais admiradores e entusiastas. Contudo, parece que a SNK não gostou da ideia; a empresa japonesa chegou mesmo a ameaçar os autores do projecto NeoRAGEx com acções judiciais. Entretanto, esses gritos de protesto não ecoaram pela cena do desenvolvimento independente. Um verdadeiro saque pirata, diga-se.
A ascensão meteórica da Neo Geo MVS sugeria uma abordagem mais oportunista. Mesmo admitindo o entretenimento digital caseiro como a plataforma de embarque mais segura, a SNK terá imaginado um modelo de negócio bastante conservador. Inicialmente, a empresa nipónica alugava cartuchos de jogo da Neo Geo, suportados por hardware semelhante à configuração MVS, em hotéis e bares. Contudo, pouco tempo depois do nascimento do sistema MVS, a SNK apresentava a Neo Geo AES (Advanced Entertainment System), uma máquina tradicional que emularia a experiência arcade no conforto do lar. O equipamento inicial incluía 2 joysticks, 1 cartão de memória e o cartucho de NAM-1975 (SNK, 1990) ou Baseball Stars Professional (SNK, 1990). Espante-se, o pacote custava $650 em território norte-americano, cada jogo rondava os $200.
Censura no cair do panoSamurai Shodown V Special foi a última obra a entrar no catálogo da Neo Geo, em Abril de 2004. O nono título da série Samurai Shodown (Samurai Spirits, no Japão) propunha uma mecânica de combate semelhante às obras anteriores, assente em batalhas com armas num plano bidimensional. Contudo, o canto do cisne da máquina da SNK provocou alguma revolta entre dos adeptos mais aguerridos. Aquando o lançamento da versão AES de Samurai Shodown V Special, alguns movimentos mais sangrentos (como fatalities e zetsumei ougi) tinham sido removidos ou alterados. Fechou-se o ciclo da Neo Geo com chave dúbia e polémica desnecessária, portanto.
O preço elevado do sistema AES, a euforia mundial em torno da Super Nintendo e o catálogo focado em propostas alternativas transformaram a Neo Geo numa experiência luxuosa, mas apoiada por um culto restrito. Além da magia e competência de Art of Fighting (SNK, 1992), Fatal Fury (SNK, 1991) e The King of Fighters 94 (SNK, 1994), a Neo Geo nunca conseguiu competir com as ofertas da Sega e Nintendo, que disputavam um mercado de entretenimento digital florescente e acessível a todos os bolsos. Com a Neo Geo CD, lançada em 1994, a SNK recorria à mesma fórmula dos concorrentes directos; disponibilizava um produto relativamente acessível, com vários títulos a rondar os $50 e um sistema de $300. Contudo, a premissa da empresa japonesa caiu por pecados demasiadamente evidentes. A arquitectura da Neo Geo CD, baseada no formato CD-ROM, impunha tempos de carregamento incomportáveis. Mais, a maioria dos títulos disponíveis para a consola eram simples adaptações de versões anteriores, entretanto lançadas na Neo Geo MVS e AES. Depois do esboço Neo Geo CD, a SNK ainda tentou disputar o mercado das consolas portáteis. As Neo Geo Pocket e Pocket Color resumem-se em 2 anos de memórias, sem sucesso comercial ou cicatriz significativa.
Herança digitalDesde o renascimento da SNK em 2003 com a designação SNK Playmore, após declarar falência 2 anos antes, a empresa fundada por Eikichi Kawasaki adoptou uma filosofia de desenvolvimento e distribuição mais democrática. A herança digital da SNK cresce nas plataformas mais relevantes do mercado, popularizando séries queridas entre os apaixonados pela Neo Geo MVS e AES. Títulos como Metal Slug 7 (SNK, 2008) atacam os mercados da Nintendo DS e PSP, enquanto clássicos como Garou: Mark of the Wolves (SNK, 1999) renascem na Xbox 360. Entretanto, a licença bandeira da era Neo Geo continua a consolidar um caminho de criatividade e apelo universal. The King of Fighters XII (SNK, Ignition Entertainment) chegou ao mercado europeu já em 2009, para felicidade dos adeptos de sempre e algum descontentamento dos analistas de alma cerrada. Além da crítica, mantêm-se a chama e espírito da Neo Geo.
A Neo Geo cravou uma identidade própria, uma alma efervescente que só por desígnio incógnito não conquistou mais fiéis. No panteão da indústria jazem obras revolucionárias que agitaram salões pelo mundo e despertaram o interesse de entusiastas caseiros. O catálogo do sistema terá, ironicamente, reforçado o estatuto de objecto de culto da Neo Geo, uma máquina que nasceu fora de época, que nunca conseguiu acreditação do grande público. Culpem-se os estrategas comerciais da SNK que acreditaram no potencial duma máquina que custava $650. Acuse-se o grande público de amor incondicional pela arte digital de consumo rápido e alma menor. Louve-se uma herança incalculável, uma história de efemeridade e renascimento que encantará curiosos e apaixonados nos anos vindouros. Que a distribuição digital leve as obras da consola da SNK a uma nova geração alheia às origens da indústria que sustenta. Talvez haja mais para contar sobre a Neo Geo.




Excelente artigo! A Neo Geo foi sem dúvida uma das melhores plataformas de jogos dos anos 90, foi pena que a SNK nunca tenha desenvolvido mais o projecto fora do Japão e Estados Unidos.
Até desenvolveu, Ricardo… mas apenas nos salões Arcade. A SNK conseguiu uma expansão interessante da Neo Geo MVS na Europa e EUA, mas a parente mais pequena decorou os armazéns dos retalhistas. Fica a história e a tal herança digital
[...] são fãs da SNK e da Neo Geo, têm como leitura obrigatória este excelente artigo do Daniel [...]