Sangue capital.

Publicado por DannyCosta Em 09 Nov 2009

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Acabou a era da inocência. A indústria que me sustenta a alma vive num limbo nefasto, perto do éden criativo mas ainda longe da acreditação artística que procura. A massa humana que transportou o negócio a um apogeu capitalista parece reticente em elevar o entretenimento digital ao estágio seguinte. Quem engorda os cofres das maiores editoras continua a aceitar propostas quase vazias, obras sem gota de propósito mas pintadas a vermelho sangue e atestadas de pólvora. Em 2009, o disco comercial tem mais valor que nunca; sequelas previsíveis, acção desmedida e orçamentos ajustados perfazem a receita que garante milhares de encomendas junto dos retalhistas.

Ora, com o interesse alheio tão colado à polémica violência digital admitia-se um tipo de comportamento mais cipreste por parte do consumidor. Mas não. O planeta parece um demónio em chamas, personificado num grupo de evangelistas da desgraça que prega o fim da violência nos videojogos. Protejam-se as crianças, dizem. Salve-se o mundo da influência negativa desses brinquedos, choram. Ligam-se tragédias ao fenómeno da interactividade digital com frivolidade assustadora, quase sempre assente em ignorância e autismo. Enquanto o capuz vai servindo uma sociedade tão hipócrita como onanista, o sangue capital que banha inúmeros discos continua a alimentar uma indústria que precisa dessa atenção, que agradece presentes publicitários. Ao rebanho mais assustado pede-se uma nova perspectiva, um olhar mais criterioso para o próprio umbigo que não limite expressões de arte nem castre a liberdade alheia.

As editoras também urgem uma reflexão profunda sobre a própria política de publicação e desenvolvimento. A crescente descaracterização de empresas reputadas no meio complementa uma homogeneidade cancerígena à mentalidade de produção e consumo. A Tokyo Game Show deste ano foi prova disso. A máquina oleada da indústria japonesa parece apática, acomodada ao interesse ocidental que exige mais explosões, material bélico e sangue gratuito. O barco japonês continua a rumar para oeste, sacrificando tripulantes, recursos e uma herança artística brilhante e bem sucedida. Entenda-se esta nova inspiração como necessária e pragmática, mas triste e quase profética.

Acabou a era da inocência. Enquanto o sangue digital continua a vender, é tempo de traçar a linha entre adereço artístico e instrumento de arremesso. Pois como disse um escriba maior da nossa praça, é preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue.

Também pode ler este texto na coluna Now Loading, na edição nº7 (Novembro) da Revista Smash!

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2 Comentários em “Sangue capital.”

  1. Vote -1 Vote +1Renan Santos Gomes
    says:

    A violência nos games é um tema bastante complexo, me parece que a industria segue o rebanho, isto é, nós consumidores. Recentemente a LucasArts lançou um jogo chamado Lucidity, este jogo é excelente em termos gráficos, sonoros e de jogabilidade, Porém se visitarmos os sites especializados em games constatamos que os usuários odeiam este tipo de jogo. Por que? Simples estão acostumados a está cultura, um jogo para ser bom precisa ter muita violência, é um paradigma. Por isso me pergunto de quem é a culpa, primeiro da comunidade por dar valor a este tipo de jogo, segundo das produtoras que não oferecem produção e terceiro das pessoas que atacam os games como coisa do diabo, pois em vez de desistimular estes criam polêmicas que servem de marketing para as empresas de games.

    • Vote -1 Vote +1DannyCosta
      says:

      Não creio que os analistas sérios estejam limitados a considerar jogos com mais violência, Renan. Mais, como crítico, aceito violência e sangue num disco, desde que sirva o propósito artístico ou conceptual da obra.

      De qualquer forma, tens razão numa coisa – muitos consumidores preferem sangue digital gratuito a propostas mais competentes e divertidas. As maiores editoras apoiam-se no capitalismo para explicar a aposta em títulos estupidamente violentos, sem o mínimo interesse ou mensagem nessa vertente, que asseguram anos fiscais mais confortáveis. A culpa é “nossa” sim, mas não exclusivamente.

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