
A indústria dos videojogos vive dias de exaltação, embalados pela descoberta constante e criatividade florescente. A indústria musical não vive os melhores dias, por conservadorismo incurável e apego às ideias de ontem. Contudo, os dois meios escolheram uma política de não agressão, potenciando aventuras conjuntas e projectos rejuvenescedores. Além dos temas clássicos, tocantes e memoráveis, pensados exclusivamente para a interactividade digital, os videojogos têm servido de bengala confortável para as mais reputadas entidades em cena. Tommy Tallarico, compositor de videojogos com duas décadas de experiência na bagagem, imaginou um éden criativo onde arte digital e sonora emocionam milhões. O espectáculo Video Games Live propõe um festim audiovisual, uma celebração de duas formas de entretenimento, arte e paixão. Ora, para comemorar o regresso do evento a Portugal, o concerto terá lugar no Campo Pequeno, no dia 27 de Novembro, conversei com o co-autor e apresentador do Video Games Live. Tommy Tallarico discute o futuro das da indústria, distribuição digital, a parceria entre a música e os videojogos, e ainda recusou um pedido de casamento. Heresia!
Daniel Costa: Olá Tommy! Viajas pelo mundo, com a equipa do Video Games Live, para tocar os melhores temas musicais de videojogos. Antes desta aventura, trabalhaste em centenas de títulos. O que despertou a tua vontade de arrumar as malas e correr o mundo?
Tommy Tallarico: Sou um compositor de videojogos há quase 20 anos, e o meu parceiro no Video Games Live, Jack Wall, tem feito o mesmo nos últimos 13 anos. O meu objectivo com o Video Games Live era provar ao mundo a importância cultural e artística dos videojogos. Não quis programar um concentro sinfónico apenas para jogadores mais maduros; preferi criar um espectáculo. Não queria necessariamente um concerto, mas uma celebração completa da indústria dos videojogos, por isso concebemos um espectáculo para todos.
Para descrever o Video Games Live rapidamente: Uma orquestra sinfónica e um coro tocam a melhor música de videojogos de sempre. Mas o que torna tudo tão único é a sincronização da música com imagens num ecrã gigante, os efeitos de luz semelhantes a um concerto de rock n’ roll, a produção no palco, efeitos especiais e elementos de interactividade com o público. O poder e emoção duma orquestra sinfónica combinam-se com a energia e excitação dum concerto de rock misturado com a interactividade, apresentação visual espantosa, tecnologia e divertimento proporcionados pelos videojogos.
Daniel Costa: Estava entre as primeiras filas no Campo Pequeno, aquando a última passagem do Video Games Live por Lisboa, em 2008. No final do espectáculo, tive uma epifania. Depois de assistir a uma celebração de música e arte, oferecida por indivíduos apaixonados como tu e o Sr. Jack Wall, estabeleci uma ligação emocional com qualquer obra ou compositor tributado no evento. Admitindo que o grande público reage com mais facilidade a artistas “reais” que a personagens digitais, pensas que este tipo de interacção Humana pode ser vital para o futuro da indústria?
Tommy Tallarico: Acredito que isso é uma combinação de muitas coisas -- das pessoas, do aspecto visual, das personagens e do jogo, claro. Muitas pessoas ficam emocionalmente ligadas a certos jogos e sistemas. No que diz respeito às memórias que as pessoas têm, há uma magia especial que vês durante as actuações. Quando as pessoas ouvem e vêm alguns segmentos são devolvidas à infância e a épocas mais inocentes. Por causa disso, as pessoas dizem-nos que se emocionam e choram durante o espectáculo.
Daniel Costa: Estás envolvido na produção de conteúdo musical para videojogos – já trabalhaste em títulos como Metroid Prime e a série Unreal. Esses projectos são apoiados por empresas financeiramente viáveis, e contam com orçamentos generosos. Recentemente, a indústria assistiu à expansão da distribuição digital, que possibilitou uma direcção criativa mais democrática para os estúdios independentes. Além dos eventuais méritos conceptuais dessas obras, pensas que este fenómeno pode iniciar uma nova geração de talento musical?
Tommy Tallarico: Sim, absolutamente. E não apenas compositores de videojogos, mas também designers de videojogos, geralmente. Isso lembra-me dos meus primeiros passos na indústria, há 20 anos. Um jogo poderia ser criado por pequenas equipas independentes e nasciam muitas ideias e designs novos. Com coisas como o iPhone, consolas portáteis, conteúdo digital, Xbox Live Arcade, etc., assistes ao renascimento dos estúdios independentes e tens a oportunidade de conhecer o talento de novas pessoas.
Daniel Costa: Alguns retalhistas relevantes parecem adoptar uma política anti-Darwin, relativamente à distribuição digital, recusando a distribuição de produtos como a PSPGo. Qual a tua opinião sobre o limbo contínuo entre distribuição física e digital? Que método poderá beneficiar consumidores e equipas de desenvolvimento?
Tommy Tallarico: Os retalhistas estão assustados… e devem estar. A distribuição digital está ao virar da esquina e irá mudar radicalmente a face da nossa indústria, positivamente. Considera isto… e se tivesses que ir a uma loja sempre que quisesses comprar uma nova aplicação para o teu iPhone ou telemóvel? No fim, não terias tantas aplicações nem poderias aplicar actualizações, testar o produto antes de comprar, etc. A distribuição digital é, definitivamente, o futuro da nossa indústria. Os retalhistas têm de encontrar uma forma criativa de continuar a levar pessoas até às lojas, se quiserem sobreviver. Penso que isso é possível, mas terão que ser criativos. Competições nas lojas? Ofertas de prémios? Encontros com designers? Não é impossível, mas terão que mudar o seu pensamento para continuar no barco.
Daniel Costa: O Sr. Robert Kotick, CEO da Activision Blizzard, tem motivado alguma controvérsia e discussão entre os principais actores da nossa indústria, relativamente ao preço base dum disco. Acrescentar $10 ao preço de retalho dum jogo, e pedir $150 pela Prestige Edition de Call of Duty: Modern Warfare 2 não será uma decisão muito popular. Acreditas que as pessoas estão preparadas para pagar tanto por um jogo? Pensas que esta situação poderá testar, de forma egoísta, um novo valor definitivo para os discos vendidos a retalho?
Tommy Tallarico: Penso que algumas pessoas estão dispostas a pagar mais para ter uma experiência VIP, ou por conteúdo extra, especialmente se forem hardcore. Não vejo nada de errado nisso. O mesmo pode ser dito sobre a indústria dos concertos. Algumas pessoas querem os lugares VIP de $100, outras pagam $20.
As pessoas costumam comparar a indústria dos videojogos à indústria do cinema. Uma das maiores diferenças entre jogos e filmes é que por $12, por pessoa, podes assistir a um filme de 2 horas. Portanto, depois de teres pago por ti e pelo teu acompanhante (Deus te livre de levares a família toda) e teres comprado as pipocas e bebidas, provavelmente pagarás cerca de $40 pela noite e recebes 2 horas de entretenimento. Agora, compara isso a um jogo que custe entre $50 e 60$ e que te oferece entre 80 e 100 horas de entretenimento. Os videojogos são um negócio arriscado, e a alteração da tecnologia dificulta a modernização de várias entidades. Algumas empresas têm abandonado o negócio e fechado lojas, portanto não considero que o preço dos jogos seja totalmente injusto, neste momento. Além disso, considera que mais de 30% de todos os videojogos no mundo estão no mercado negro, e basicamente são furtados.
Espero que, quando a distribuição digital assumir o controlo, e os agentes médios (retalhistas, distribuidores) forem eliminados, o preço dos jogos baixe para o consumidor, enquanto a editora da obra consiga lucros que sustentem a empresa, garantam sucesso e dinheiro para desenvolvimento futuro e tecnologia.

Daniel Costa: Nos últimos anos, as editoras focam esforços no género de simulação musical. Séries bem cotadas, como Rock Band, Guitar Hero e SingStar, parecem actuar como uma estratégia de marketing para um grande número de bandas mainstream. Marcas apelativas, como Metallica, Aerosmith e The Beatles estão a gerar muito dinheiro com guitarras de plástico e baterias toscas. Como classificas estes jogos? Pensas que a relação entre a indústria dos videojogos e a indústria musical está destinada a ser saudável?
Tommy Tallarico: Esses jogos representam algo absolutamente positivo, e o aumento incrível das vendas de instrumentos musicais, especialmente guitarras, no último par de anos, é a prova disso. Centenas de pessoas abordam-me após o nosso espectáculo e dizem que, por causa de Guitar Hero ou Rock Band, compraram uma guitarra ou baixo reais, para começar a aprender as músicas a sério. O Video Games Live também tem esse efeito nas pessoas! Recebemos TONELADAS de e-mails e cartas, depois de cada actuação, de pais que dizem que o filho ou filha foi a um dos nossos espectáculos e, no dia seguinte, queria ter aulas de violino, porque queria aprender a tocar os temas de Halo, Final Fantasy, Kingdom Hearts, entre outros. A música é algo muito poderoso… e os videojogos também. Juntos, podem ter um impacto cultural na vida de milhões de pessoas em todo o mundo.
Contudo, penso que ainda há espaço para expandir este género. Ainda precisamos de Led Zepplin, Pink Floyd, etc., mas a indústria precisa de ter cuidado para não gastar totalmente um género de música. Vamos expandir isto além do rock ‘n roll. Vês algumas empresas a iniciar esse caminho, com jogos como DJ Hero. Mas vamos fazer Piano Hero também! Vamos acrescentar géneros musicais como blues, música clássica e jazz à mistura! Vamos convencer uma geração de pessoas, que podem não ter qualquer ligação aos videojogos, a pegar num comando. Sei que se existisse um jogo de rock dos anos 50, ou algo do Elvis Presley, a minha mãe e o meu pai seriam os primeiros na fila para jogar! Com a Wii, a Nintendo provou que quem não é um jogador hardcore também está disposto a jogar. Também devemos ter essa mentalidade para jogos musicais. Devemos expandir a ideia para música clássica ou outros instrumentos, como violino, teclas, etc. Penso que existem muitas pessoas interessadas nessa experiência, se estiveres lá para responder às suas necessidades e gostos.
Penso que o futuro da música e dos jogos vai crescer, ser mais brilhante, melhor e muito mais interessante durante a próxima década. Vai ser divertido participar nessa viagem louca. Segura-te bem! (risos)
Daniel Costa: A próxima pergunta será um pouco injusta, e cliché, mas tem que ser feita de qualquer forma – que compositores te inspiraram para trabalhar nesta indústria, e porquê?
Tommy Tallarico: O meu compositor favorito de sempre é Beethoven. A música de John Williams também foi outra grande influência, mas terei que responder Beethoven e, claro, Steven Tyler – vê-lo no palco e pensar “se ele consegue fazer aquilo, tu também consegues!”. Uma combinação engraçada: Steven Tyler, John Williams e Beethoven.
Daniel Costa: Ok Tommy! Vamos fechar a nossa conversa com chave de ouro. O Video Games Live está de volta a Lisboa (dia 27 de Novembro no Campo Pequeno). Óptimo! Mas ainda estou no escuro em relação a novos segmentos do espectáculo. Podes subir ligeiramente o véu? Se me disseres que tocarão temas de Panzer Dragoon e Braid peço-te já em casamento! Hum…
Tommy Tallarico: Bem, nesse caso, NÃO tocaremos Panzer Dragoon e Braid, definitivamente. (risos)
Ouvi muitas sugestões de pessoas que nos visitaram durante o meet & greet do ano passado, e anotei muitas ideias. Não quero confessar todas as surpresas, mas as pessoas poderão ver e ouvir jogos como Chrono Trigger/Chrono Cross, Mega Man, Shadow of the Colossus, entre outros. Este ano, também incorporámos 3 ecrãs e câmaras HD, para que os segmentos que as pessoas possam ter visto anteriormente ganhem uma apresentação mais espectacular.
Actualização (25/11/2009): Depois desta entrevista, a Mandrake (entidade responsável pelo evento em Portugal) adiou o Video Games Live para 2010. Mais informação na página oficial do espectáculo.
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Parabéns pela entrevista, muito bom! E é bom saber dessas músicas, conheço quem tenha chorado por elas o ano passado, e que agora estão completamente em pulgas! E venham elas (as músicas)! xD
Em relação à tua pergunta do digital/fisico.
Curioso, que nem por um momento é referido na resposta do Tallarico o consumidor, apesar de teres perguntado para os dois lados. Já o ano passado ele na entrevista ao Rumble disse que as lojas tão para morrer em meia dúzia de anos.
O que é bom para a indústria pode não ser bom para o consumidor. Como é o caso da solução única da distribuição digital como nos querem, os da indústria, fazer engolir guela a baixo.
Mas, admitindo que a distribuição digital encontre um middle ground justo para devolopers e consumidores, pensas que isso será… mau para quem compra?
Se isso fosse possível… “indústria” já deu provas de que não se importa com o “consumidor”.