
Quem se aventura na bela arte do desenvolvimento independente corre riscos. A pior maleita desse mundo de sonhos será a condenação à sombra, esconder ideias dos que vivem camuflados, longe da maior raiz criativa da indústria. Admita-se que grande parte dos génios de cave, alheios às tendências dos discos em retalho, caminha fora dos holofotes que encadeiam o ego alheio. Caro leitor, serei porventura um estóico lutador pelo mérito das maiores mentes da área, um simples evangelista de ocasião que tenta elevar a melhor arte a outros palcos. Para o efeito, louvo Machinarium, a mais recente obra da Amanita Design.
Machinarium oferece uma experiência audiovisual incomparável. A obra é como um belíssimo quadro digital, pintado com a melhor sensibilidade artística e competência técnica. Os criativos da Amanita Design sonharam uma cidade metálica onde robôs emulam a rotina diária do nosso mundo, vivem problemas numa sociedade bem estruturada. O traço tradicional transparece emoção em cada momento da aventura, tornando o cenário numa personagem viva e omnipresente. Mais, a banda sonora original, imersiva e adequada, envolve o aventureiro digital num ambiente mecânico, assentando perfeitamente na ideologia criativa de Machinarium. Mas o brilhantismo conceptual do título em escrutínio não se resume à arte gráfica e sonoplasta em montra; toda a narrativa da obra suporta uma ligação única entre o utilizador e as personagens em cena. As ideias dos robôs são apresentadas numa bolha de imagens, sem qualquer guião assente em palavras. O enredo é desenvolvido a cada esquina, em cada interacção com outras máquinas. Considere-se o pacote artístico de Machinarium como genial e tocante, portanto.
Saiba que Machinarium transpira coragem. A estrutura de progressão, assente nos conceitos mais tradicionais do point-and-click da década passada, desafia o pensamento, a capacidade de unir teorias, de queimar o cérebro. Machinarium propõe um exercício mental bastante exigente, longe da facilidade gritante que inunda discos abençoados com outro tipo de orçamento. Cada puzzle estimula os sentidos do utilizador, culminando (quase) sempre numa resolução divertida e inteligente. Contudo, Machinarium sofre dalguma claustrofobia mecânica. A Amanita Design construiu a utopia robótica em Flash, limitando funções intuitivas e essenciais em cada obra do género. Por exemplo, selecciona-se um item com o botão esquerdo do rato, mas é impossível largar o objecto com o botão direito. Mais, não é possível viver Machinarium em ecrã completo, já que a resolução nativa do título deixa algum espaço morto na imagem. Pequenas espinhas num prato luxuoso, claro…
Machinarium é um feito artístico notável, uma aventura apaixonante que se sobrepõe a limitações conceptuais. Os checos da Amanita Design provam que o mercado de distribuição digital consegue gerar a melhor arte, com imaginação e alma, oferecendo um universo robótico absolutamente fascinante. Caro leitor, convença-se que Machinarium é uma aventura divertida, desafiante e emotiva que conquistou o seu escriba de sempre.
Nota: Ao leitor Ricardo Almeida, que recomendou uma visita ao mundo de Machinarium – Obrigado!



