Obrigado, Snake.

Publicado por DannyCosta Em 25 Sep 2009

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Desde o tempo da arte digital crua, quando a mais simples palete de cor chegava para preencher o imaginário alheio, as premissas criativas nos videojogos eram sempre adjacentes à saúde financeira das editoras. Nos primeiros passos da indústria, adolescente e anárquica, poucos ousavam o éden criativo, ninguém pensava diferente. Nessa mesma época, a sanidade mental de Hideo Kojima, tão instável como producente, correu um trilho, um caminho único e original que desafiaria as bases conceptuais da cena do desenvolvimento digital. Pela primeira vez, a ideia de controlar pequenas personagens num ecrã suplantaria a inércia dum qualquer filme. A fusão quase perfeita entre competência técnica e um enredo sólido e emotivo, livre de qualquer sanção criativa ou edição superior, galvanizou o génio de Hideo, espantou quem pegava num comando pela primeira vez e sublinhou a pujança editorial da Konami. Mesmo apoiado em inspirações cinematográficas por demais evidentes, Kojima fez crescer Metal Gear recorrendo a interpretações muito próprias. De Solid Snake a Big Boss, Meryl e Otacon, a série viu nascer inúmeras personagens perfeitamente inesquecíveis, gerou a trama mais complexa e apaixonante de que tenho memória, esboçou emoções fortes e conquistou o seu escriba de serviço. Além das peças de colecção do passado, que ainda hoje tributo a cada ocasião, a saga Metal Gear Solid cravou cicatrizes profundas na minha maneira olhar os videojogos, de pensar a criatividade e arte corrente. Para fechar uma era, e celebrar as duas (primeiras) décadas da série, São Kojima imaginou a última missão de Snake. Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots foi uma experiência ímpar, uma viagem de aprendizagem e humildade perante a alma, paixão e devoção dum artista genial ao projecto duma vida.

Guns of the Patriots nasceu num ambiente de euforia colectiva. O mundo aplaudia cada segundo conceptual da obra que viria fortalecer o catálogo da jovem PlayStation 3. A quarta interpretação de Metal Gear Solid seria um feito técnico brilhante, condenado ao perfeccionismo desde o berço. Por devoção à arte de Kojima, os adeptos mais aguerridos vertiam lágrimas de expectativa e espanto perante as primeiras imagens de Old Snake. A velha cobra de batalha, crispada pela experiência, simbolizaria um contraste ímpar nos contos de Hideo; a velhice precoce da personagem central do enredo marcaria o tom trágico de Metal Gear Solid 4. Porém, na sombra da pressão do mundo exterior, a equipa encarregue pelo desenvolvimento do disco assistia ao perfeito declínio da plataforma de trabalho. Os sucessores do trono de Ken Kutaragi, comandante absoluto dos primeiros anos do reinando PlayStation, preferiram adoptar uma postura algo arrogante, imprudente e desprovida de qualquer tipo de sensibilidade. O período negro da Sony Computer Entertainment alterou, forçosamente, a expectativa em torno de Metal Gear Solid 4. Para além de criar um monstro voluptuoso que fizesse uso do músculo técnico na PS3, Kojima teria que actuar como sebastianista de ocasião, propiciando uma nova era de credibilidade e segurança ao negócio da Sony. Felizmente, para quem se apaixonou pela arte do designer japonês, Hideo conseguiu isso mesmo.

Caro leitor, antes do escrutínio à alma maior embutida em Metal Gear Solid 4, atente aos detalhes técnicos da obra. A equipa da Kojima Productions apresenta uma evolução notória da premissa criativa da série, que entrou num estado de maturação durante os anos de ouro da PlayStation 2. Guns of the Patriots sugere uma aventura linear, ainda que incrivelmente maquilhada. O objectivo de cada missão de Old Snake é tão básico como focado: viajar dum determinado ponto no mapa até outro sítio mais seguro, desenvolvendo o guião da obra pelo caminho. Este conservadorismo prático é perfeitamente assumido desde o inicio da demanda, servindo na perfeição os propósitos narrativos de Kojima. Contudo, o método de exploração do cenário e ambiente tornou-se ambíguo; o soldado digital é equipado com toneladas de arsenal bélico. As típicas missões de furtivas, onde Snake se esconde do perigo navegando incógnito pelo terreno, ganham rótulo opcional; é possível depender da pólvora, aniquilando exércitos ou qualquer contrariedade vulnerável a balas. Esta nova abordagem, apoiada numa forte vertente de acção, não envergonha a possibilidade de estar escondido nas sobras, camuflado do inimigo. O novo sistema OctoCamo, que emula as texturas de qualquer objecto ou terreno que Old Snake pise, propõe mais criatividade na vertente furtiva de cada nível. Saiba ainda que pode recorrer à direcção do vento, temperatura e orientação (!) para definir a sua própria estratégia de escape. Tudo é pintado com a maior sensibilidade artística e competência técnica; Guns of the Patriots será a obra visualmente mais bela e completa que alguma vez sonhei. Além disso, a trilha sonora, maioritariamente composta por Harry Gregson-Williams, atribui mais uma componente épica ao produto final. De qualquer forma, a magia, o apelo de Metal Gear Solid 4 não dorme na mecânica interactiva, nem depende da fabulosa vertente audiovisual em montra; a obra maior de Kojima aposta forte no drama digital, oferecendo um guião poderosíssimo e tocante. Todas a personagens que aprendi a admirar, oriundas de várias épocas da série (de Metal Gear a Metal Gear Solid 3: Snake Eater) participam na conclusão apoteótica do conto de Hideo. Guns of the Patriots transportou-me para um cenário de guerra assustadoramente credível, onde a realidade metafórica serve como aviso, como crítica política e social.

War has changed. Hideo partiu desta premissa  narrativa para dissecar o comportamento humano no campo de batalha. A mensagem é óbvia, mas marcante, actual e significativa; independentemente da ideologia, motivação ou objectivo, ninguém ganha com confrontos armados. A criação dum conceito de economia de guerra, que incentiva a privatização de recursos militares e define o equilíbrio e a paz global, envolve as personagens de Guns of the Patriots num ambiente perfeitamente oportunista, onde quem tem olho é Rei. Kojima imaginou uma época onde o poder financeiro e interesse político se sobrepõem ao equilíbrio entre guerra e paz. Mesmo considerando o enredo totalmente fantasiado, Kojima-sama passou a real situação bélica do mundo pela lupa incandescente de Metal Gear Solid. Como qualquer grande obra de arte, Guns of the Patriots é mais do que aparenta ser; um guião embebido na lenda da série, mas uma profunda observação politica a que ninguém ficará indiferente. Comum a qualquer guerra sangrenta por esse mundo, a mortalidade é um tema bem presente em cada passo de Old Snake. O meu velho herói personifica (ainda que digitalmente) uma contagem decrescente até ao fim da estória, um sentimento agridoce que indica o fechar dum ciclo na montra dos videojogos. A Konami publicitou Metal Gear Solid 4 como a última aventura do lendário Solid Snake, Kojima confirmou essa mesma premissa. A decadência física do guerreiro é a metáfora perfeita para um enredo tão trágico como belo que, ainda assim, dispara alguns cartuchos de esperança. Rever personagens após mais de quarenta anos (segundo a linha de tempo de Metal Gear) de ausência, assistir ao desaparecimento de outras e defrontar rivais de sempre, acaba de preencher o pacote emocional de Guns of the Patriots. Caro leitor, acredite nisto – a obra em destaque neste texto oferece o mais completo leque de sentimentos que esta indústria alguma vez conheceu.

Racionalizar o mérito criativo, artístico e técnico de Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots será uma tarefa impossível.  A obra foi pensada para ser interpretada, vivida e, sobretudo, para apaixonar os que aceitarem a última missão duma lenda digital. Cada segundo de Guns of the Patriots é um hino, uma ode aos videojogos como motor de pensamento e arte. Admito que não consegui conter algumas lágrimas, aquando o rolar dos créditos finais da obra-prima de Hideo Kojima. O sentimento de dever cumprido fundiu-se com a conclusão brilhante dum épico intemporal.

Por me permitir um esconderijo à vida durante mais de uma década, por me ter feito evoluir como apaixonado irrecuperável e experimentar momentos inesquecíveis – Obrigado, Snake.

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2 Comentários em “Obrigado, Snake.”

  1. Vote -1 Vote +1Andre Mendes
    says:

    Simplesmente Um dos jogos da minha vida!!

    A konami esta de parabens pelo grande feito que foi de fazer este grande jogo. METAL GEAR!

  2. Vote -1 Vote +1Vítor Caseiro
    says:

    O que mais posso dizer é, MGS, e já é um lenda!

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