
Longa vida ao Steam! O serviço de distribuição digital da Valve conquistou o seu espaço na rede, por emancipação inteligente, ganhando uma fatia dulcíssima do bolo de mercado. Numa época transitória para o desenvolvimento sustentando (e exclusivo) na feira do digital, a empresa de Gabe Newell imaginou um produto, uma experiência comunitária estimulante e quase messiânica. Enquanto os cofres dos gigantes da indústria engordam consistentemente, através de investimentos absurdos no reinando das consolas domésticas, o projecto Steam simboliza um grito de liberdade, um luzir de esperança ao fundo do túnel para os agentes mais criativos do meio. A democratização do desenvolvimento lúdico, para a plataforma mais velhinha da cena actual, materializa propostas originais, únicas e brilhantes. Ora, para celebrar esse fantástico pedaço de software, sugiro três obras de enorme qualidade que moram nos servidores do Steam. Mesmo admitindo a presença dos títulos em montra noutros catálogos, a saber: Xbox 360 e PlayStation 3, estes respiram melhor na plataforma da Valve. Atente a mais um desfile de entretenimento e arte digital.
Braid (2009, Number None, Preço: 12,99€)

Braid é um quadro em movimento, uma obra de arte bela e asfixiante.
A indústria dos videojogos parece ter (finalmente) encontrado uma posição pujante no mercado do entretenimento caseiro e móvel. Por entre sonhos mais ou menos utópicos, embebidos em poços de ouro negro digital, os actores desta peça apostam num jogo privado com os consumidores; somos constantemente atacados com discos crus, unidireccionais e perfeitamente amorfos. Jonathan Blow, designer mor de Braid, prefere esquecer os milhões, a atenção e palcos cintilantes das maiores editoras. Não. Blow seguiu a própria alma, interpretando um sonho ímpar na cena do desenvolvimento digital. Braid será a proposta mais humana, emocionante e estruturada que dissequei nos últimos anos. Um puzzle (aparentemente) simples, disposto numa mecânica de progressão clássica, que recorre à manipulação do tempo, atenção ao detalhe e, sobretudo, à capacidade interpretativa do jogador. Este quadro bidimensional propõe ainda alguma da melhor arte digital da nossa praça, uma trilha sonora absolutamente divinal (assinada por Cheryl Ann Fulton, Jami Sieber e Shira Kammen) e um enredo tão épico como enigmático. Braid explica o amor, raiva e arrependimento de forma belíssima e progressiva, incentivando o jogador a uma reflectir constantemente sobre o que acontece no ecrã, através duma execução brilhante e emotiva.
Para o leitor mais conservador, que (ainda) não entende os videojogos como uma expressão artística tão válida como qualquer outra, sugiro esta prova de sonho. Braid é inteligente, belíssimo e genial.
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Portal (2007, Valve, Preço: 11,99€)

Facto científico: reflectir em demasia sobre a complexidade de Portal provoca aneurismas. Acredite.
A premissa criativa de Portal é tão inesperada como desesperante; criam-se dois portais, de entrada e saída, para navegar no cenário e completar os objectivos de cada nível. Esqueça os monstros horrendos de Half-Life, ou outras criaturas típicas da Valve; Portal propõe uma disputa hilariante entre o cérebro do jogador e GLaDOS, uma unidade de inteligência artificial que regula os testes em montra. GLaDOS será, aliás, uma das personagens (perversamente) mais divertidas que conheci no Steam. A pequena entidade robótica imprime um registo muito próprio à narrativa, sugerindo um exercício de story telling bem interessante. Nada é o que parece. Portal é como um tubo de ensaio, um teste que revoluciona conceitos basilares do desenvolvimento lúdico enquanto oferece uma mecânica de jogo ímpar e brilhante. Contudo, proponho que seja o leitor a descobrir os méritos da obra. Prefiro não racionalizar a criatividade e funcionamento dos portais, por amor à minha sanidade mental.
Para o registo, o tema que acompanha os créditos finais justifica o aplauso uníssono da comunidade. Além disso, no final há um bolo bem delicioso…
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Team Fortress 2 (2007, Valve, Preço: 14,99€)

Acreditando nalguns camaradas de crítica, sou muito parecido com este tipo...
Caro leitor, conhece a minha adversidade natural a shooters competitivos na primeira pessoa; a noção de aniquilar uma horda de oponentes em rede não me ferve o sangue. Contudo, lá vou molhando o bico em tentações de ocasião, sempre esperançoso por encontrar algo verdadeiramente novo e significativo. Ora, tentando justificar a instalação do Steam na minha máquina de serviço, lá me convenci que Team Fortress 2 seria o berço duma nova relação entre o género e o meu filtro de interesses, possivelmente desajustado aos nossos dias. Como diria um actor principal da sociedade lusa, soltem-se os fogos! A obra da Valve conquistou-me, por sugerir um modelo de jogo acessível e nivelado, mas surpreendentemente complexo e denso. Como o título faz adivinhar, Team Fortress 2 oferece um esquema de competição subdividido em diversas vertentes (a saber: arena, capture the point e capture the flag) onde o objectivo final só pode ser atingido através dum elaborado trabalho de equipa. Mais, para vencer uma ronda, cada equipa tem ser preenchida com membros focados no ataque, defesa e suporte. Para o efeito, a Valve desenhou personagens genéricas mas divertidas, que sublinham o tom hiperbólico da obra; Team Fortress 2 nunca se leva muito a sério, sendo uma caricatura descarada das toneladas de metal bélico que desfilam nos ecrãs desse Mundo. Ou seja, é tudo muito divertido, hilariante, equilibrado e competente.
Team Fortress 2 conseguiu um verdadeiro milagre; prendeu este escriba de serviço a um fps de rato e teclado. Que o salvação chegue até si, irmão.
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Outras sugestões: Plants vs. Zombies (leia o artigo “Plants vs. Zombies, melhor que cafeína”), Trine, World of Goo, The Longest Journey, The Secret of Monkey Island: Special Edition, série Half-Life.





Entrevista a Jonathan Blow, autor de Braid. | Now Loading... Arte dos videojogos.
[...] é uma estória de vida inarrável; um título belíssimo, original e revolucionário. Caro leitor, conhece a minha opinião sobre as maravilhas do título. Mas por mais que tente adjectivar a alma e mérito da obra, Braid é sujeito à interpretação [...]
October 5, 2009 at 10:41