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Genericamente, o consumidor de videojogos Ocidental sente um apelo misterioso por disparos fáceis e morte gratuita, na perspectiva mais pessoal dos ecrãs digitais. Talvez por influências dúbias ou autismo do gosto. De qualquer forma, a indústria lança gritos de aviso aos candidatos a novos-ricos do mercado – imaginem um first person shooter competente, a vossa carteira agradecerá. Este mandamento basilar do meio terá servido de incentivo à SEGA. A (cada vez menos) gigante nipónica apostou forte em The Conduit, um produto supostamente inovador dos estúdios da High Voltage Software, prometendo uma nova interpretação do género na Wii. A máquina branca da Nintendo cumpriria o seu destino; ser a casa mãe da criatividade, apresentando pedaços de brilhantismo digital impossíveis noutra plataforma. Após horas ao comando do Wii Remote, e muitos pontos de interrogação no bloco de notas, ofereço um teste exaustivo a The Conduit. E não; não farei qualquer comentário sobre os óculos de feira do protagonista da trama. Prometo.

A fogueira de vaidades embutida nas propostas digitais de hoje pode ser castradora para quem imagina novos mundos na Wii. De facto, a preposição natural da Xbox 360 e PlayStation 3 para imagens pintadas com a melhor resolução envergonha o músculo técnico da máquina da Nintendo. Felizmente, para os adeptos famintos por arte carnuda na Wii, a High Voltage Software propôs-se a desafiar o fado visual das obras dirigidas à consola. O estúdio norte-americano havia desenvolvido o Quantum3, um motor pensado para as definições (e limitações) técnicas da Wii. Resultante do trabalho reivindicativo em montra, The Conduit teria muito a provar. Ora, como que oferecendo uma prenda bem aconchegada no leito da comunidade, a SEGA garantiu os direitos de distribuição da obra. A dificuldade dos tempos preenche e sublinha cada linha na agenda de prioridades da empresa japonesa; a SEGA de hoje vê-se forçada a vestir um fato de macaco bem humilde, mas descaracterizador e quase deprimente. Mas enfim, registe-se a aposta em talento e projectos alheios.

Apesar da revolução mecânica, a competência visual de The Conduit é, no mínimo, passível de crítica feroz e enraivecida. Embora aplauda o esforço e dedicação notáveis impressos no disco, a obra da High Voltage apresenta cenários perfeitamente estéreis de criatividade, despidos de cor ou personalidade vibrante. A viagem pelo shooter acaba por ser contraditória ao plano inicial dos criativos; a competência audiovisual de The Conduit pode ser adjectivada com recurso a uma palavra – banal. O Universo de ficção científica (com inspirações mais que óbvias) apresentado no jogo, nunca suprime o desinteresse surpreendente que a imagem no ecrã propõe. Enquanto naveguei pelo (curto) modo Campanha, notei que cada palco de guerra ocasional era estranhamente semelhante ao anterior, em motivo e cor. A progressão no jogo não corta a frustração inicial; a estética messiânica da High Voltage Software sofre por défices artísticos e criativos.  Para além da mencionada falta de qualidade visual, não existe alma que carregue a cruz de The Conduit; a obra é fruto duma visão crua e capitalista, obviamente direccionada a uma fatia de consumidores prontos a sacrificar essência por aparência bem vestida. Caro leitor, só espero que não pertença a essa tribo de desnaturados…

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Já vi aquele bicho em qualquer lado...

Com a decepção inicial pelo aspecto desacreditado da obra, aventurei-me pela carne mais suculenta da proposta da SEGA. A mecânica de controlo de The Conduit salva os louvores ao trabalho da High Voltage. Sem grandes expectativas, fiquei agradavelmente surpreso com a competência e precisão do Wii Remote e Nunchuk. O leitor mais atento às palavras do escriba de serviço reconhecerá a admiração que nutro pelo trabalho da Retro Studios, em Metroid Prime 3: Corruption. Entre um saco cheio de mérito e qualidade, o terceiro capítulo de Metroid Prime revolucionou as bases conceptuais, de desenvolvimento e ideias, na Wii. Embora Corruption não possa ser interpretado como um shooter tradicional (o título apresenta uma mecânica e dinâmica de exploração correspondentes ao rótulo de first person adventure), o esquema de controlo, bem como a calibração e precisão exacta do apontador no ecrã, terão contribuído para o sucesso do jogo junto dos críticos e consumidores mais sensíveis. The Conduit emula, com qualidade assinalável, a competência técnica do controlo de Metroid Prime 3. A High Voltage programou um esquema de comando perfeitamente acessível, muito sensível e imediato; como todos os títulos do género deveriam ser na Wii. A disposição dos botões é tão normativa como competente – recorremos ao Wii Remote para disparar, saltar, recarregar e trocar de arma, activar o ASE (explicado mais à frente) e aceder ao menu, enquanto o Nunchuk serve para bloquear a câmara num adversário específico e mover a personagem. Muito simples certo? The Conduit atinge um alto patamar de interactividade na primeira pessoa, pela capacidade da High Voltage em interpretar o potencial da Wii, neste departamento. Um pequeno brilho no céu de banalidade em que a obra vive…

O maior pecado de The Conduit será a estrutura de progressão e objectivos, perfeitamente castradora e despida de interesse. Caro leitor, saiba que fiquei perplexo com o modo Campanha embutido no disco. A trama roda à volta de Michael Ford, agente duma organização dúbia, que é confrontado com uma invasão alienígena em Washington. A premissa parece bastante simples e directa, mas The Conduit aposta numa narrativa cheia de inversões de guião e conspirações em cada linha de texto. Embora reconheça algum interesse no enredo, rebuscado mas minimamente eficaz, The Conduit não foi pensado para ser jogado a solo. A High Voltage terá idealizado o éden dos shooters multi-jogador na Wii, apontando algumas ideias para o modo Campanha sobre o joelho. Além disso, correndo o risco de soar incrivelmente redundante, a criatividade em montra é absurda. Os adversários de Mr. Ford em The Conduit, os Drudge, aparecerão no dicionário do analista de videojogos, na descrição da palavra cliché. Esses monstros doutro mundo, que surgem em Washington através de conduits, parecem ter sido imaginados por vendedores de lojas de máscaras. Os modelos, inteligência artificial e física dos bichos são tão vazios como a restante epopeia a solo de The Conduit. Mais, a presença dos Drudge na aventura é tão deprimente como frustrante para o jogador de ocasião. A dificuldade de progressão na Campanha de The Conduit está forçosamente ligada ao desleixo técnico da equipa da High Voltage. Ao longo da minha (penosa) sessão de jogo, morri várias vezes. Não por incompetência ou falta de atenção, mas por ser atacado subitamente por avalanches de monstros verdes e feios, ou bichanos semelhantes a baratas rolantes. As mentes por trás de The Conduit terão pensado que uma quantidade considerável de adversários substituiria um tipo de jogo inteligente e ponderado. Enfim, nunca é tarde para aprender. Para o registo, nem o armamento bélico em montra consegue reluzir imaginação ou personalidade; todas armas são importadas doutras obras, ou tão banais que nem merecem qualquer apontamento. Saiba ainda que (felizmente) poderá completar o modo Campanha numa tarde dedicada.

Uma das mecânicas pior implementadas na ideologia de The Conduit terá sido o ASE (All-Seeing Eye). Publicitada como um trunfo criativo da obra, o ASE permitiria um nível de interactividade e exploração ímpar. Nada disso. A maquineta digital, que Ford ostenta em grande parte da aventura, sugere uma camada extra de coleccionismo forçado e puzzles ofensivos. Pressionando o respectivo botão no Wii Remote, utilizamos um objecto esférico para procurar frases escondidas nos cenários, até então invisíveis a Mr. Ford, interagir com alguns Drudge e capturar moedas espalhadas em todos os cantos de cada capítulo da Campanha. Além disso, o ASE permite desvendar puzzles ocultos. A complexidade e criatividade desses quebra-cabeças constituem um ataque furtivo ao QI do jogador. Mesmo. Na maior parte das vezes, basta rodar três semicírculos até atingir a posição pedida no ecrã. Só isso. Com tanto fogo de artifício à volta desta ideia, pergunto-me se os cobres investidos na publicidade às maravilhas do ASE não teriam melhor destino; algumas linhas de código imaginativas e capazes, por exemplo…

Se já comprou a sua cópia de The Conduit, poderá passar horas no modo multi-jogador via Nintendo Wi-Fi Connection. Esta sugestão digital da High Voltage oferece um Universo competitivo interessante, explorando as competências do jogo online na Wii. Embora apresente variações perfeitamente normativas noutras plataformas, a saber: Free for All, Team Reaper e Team Objective, a estrutura de funcionamento suporta uma experiência tendencialmente divertida e competitiva. Aquando as minhas sessões de teste nos servidores de The Conduit, encontrei poucas salas com lag impeditivo. Aliás, mesmo quando jogava com pessoas no outro lado do planeta, notei uma ligação estável e dinamizadora, capaz de atrair os adeptos dos shooters tradicionais até ao disco distribuído pela SEGA. Contudo, o entusiasmo tem de ser relativizado; The Conduit apresenta uma cara pálida, quando colocado ao lado das mais respeitáveis obras do género. O buraco criativo no catálogo de shooters na Wii pressupõe mais atenção a propostas semelhantes, mas The Conduit materializa o eufemismo forçado na apreciação aos méritos reais do título da High Voltage Software. Palmas pela competência, mas uma nova de prudência ao leitor mais exigente.

The Conduit foi imaginado com uma premissa basilar – oferecer uma experiência inovadora, competente e competitiva aos milhões que formam a base instalada de consumo da Wii. Mesmo conseguindo atingir um bom nível de competência técnica nalguns departamentos, a obra peca por criatividade estéril e descaracterizada, uma Campanha vazia e castradora e uma vertente audiovisual demasiadamente hiperbolizada, sem provar qualquer valor substancial. Após algumas horas a explorar The Conduit, sinto desapontamento e descrédito pela aventura de Michael Ford. O jogo grita ironia criativa – The Conduit quer mostrar musculatura técnica, adaptando a experiência aos limites de força impostos pela Wii. O disco vale pelo modo online bem divertido e competente, mas tudo o resto cairá no esquecimento da maior parte dos interessados. Após tanto folclore mediático em redor da produção, confirmam-se as previsões mais conservadoras – The Conduit é uma sombra do que poderia ter sido.

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